Das reflexões sobre exercício, estudo, série e ensaio, ainda estou em dívida com as duas últimas. Aqui vai um pouco daquilo que escrevi no último mês, relativo à SÉ.RIE.
Se no estudo defino o termo extraído do dicionário, bem como recorro aos termos explorados na música e em outras áreas do conhecimento humano, neste e nos demais não será diferente.
Pra me aproximar do assunto, rememoro os seriados televisivos, em que se repetem os personagens, o tema, o assunto principal ad. infinitum, com pequenas alterações, quase uma discussão sobre o mesmo tema. Mas o que faz uma série permanecer por temporadas? O assunto é explorado ao esgotamento. Não mais no sentido de pesquisa mas de apresentação.
Bem vamos explorá-lo em suas diferentes definições. Atrelado sempre a uma quantidade ou grupo considerável, pode ser uma quantidade de fatos ou coisas da mesma classe e que se apresenta, um após o outro, numa sucessão espacial ou temporal. Museologicamente falando pode ser grupo determinado e limitado de objetos homogêneos que, por suas características, formam um conjunto, podendo ainda ser dividido em classe, categoria. Na música, em específico no dodecafonismo, organização dos doze sons da escala cromática ou outros parâmetros musicais, que serve como ponto de partida para uma composição.
Em sua origem, o termo advêm do latim serìes,ei 'enlaçamento, encadeamento, fieira, série (de objetos). Assim, pelo encadeamento, parece estabelecer uma ordenação seqüencial de coisas ou fatos, uma conexão ou junção. Seria, na literatura, em específico na poesia, recurso, em poesia, de fazer aparecer rima de uma estrofe na estrofe seguinte (versos). Bem como na música, seqüência lógica de acordes. Parece tomar o fio da meada, isto é, como fieira, remete a linha, ao fio, ao barbante. Faz-me relembrar o fio de Ariadne. Tem-se assim um fio condutor, uma linha que tece a trama, um tema que rege o percurso.
Por ter um gosto especial pelas aproximações ou comparações das áreas, volto-me a comparar. E apresento aqui a Forma-sonata, cuja forma compositiva tradicional se divide em momentos, discriminadas como:
· Exposição: onde são expostos os temas principais da peça, geralmente dois ou três.
· Desenvolvimento: os temas principais sofrem diversas variações e modificações, em vários tons distintos.
· Recapitulação: os temas principais são reapresentados, mas em tonalidades diferentes da exposição - geralmente na dominante. É comum que haja também mudanças na forma de execução, como a mudança de intensidade ou velocidade.
Este tipo de apresentação assume uma formação cíclica, que a meu ver, muito pertinente a esta relação que pretendo desenvolver sobre o que poderia ser definido como série, nas artes visuais. Isto é, o tema, anteriormente explorado no estudo, neste momento, se lança aproximando-se de um refinamento mais acurado, não é mais uma questão formal em pauta ou um tema. Mas tem a capacidade de agregar os elementos, um veio condutor permeia todo conjunto, exigindo do expectador um olhar mais acurado. Como na Forma-Sonata, um assunto.
Se um estudo pode vir a se constituir uma série, esta parece, a me ver, caminhar uma pouco mais. Afinal a questão temática ou formal ou conceitual se agrega a uma visualidade em acordo, partilhando, apesar das diferenças individuais, do fio condutor, o fio de Ariadne...
Como poderia exemplificar? Nada melhor que uma grande mestra, Rosangela Rennó. A artista trabalha excessivamente com as séries em apropriação de imagens, objetos e coisas, reatando a trama do tempo e da memória. Destaco abaixo texto extraído sobre a série Imemorial de 1994.
Na série Imemorial, Rosângela Rennó mostrou uma instalação de cinqüenta fotografias que renderam retratos escuros dos trabalhadores e crianças que construíram Brasília, a capital cujo desenho arquitetônico foi pioneiro por sua visão utópica. Em um armazém do Arquivo Público do Distrito Federal, Rennó achou malas com mais de 15.000 arquivos relativos aos empregados da companhia de construção do governo Novacap. Em Imemorial, ela faz uso de histórias que contam o massacre nas barracas da obra e de dezenas de trabalhadores que morreram no processo de construção de Brasília e foram enterrados nas suas fundações. Nos arquivos, esses trabalhadores foram classificados como “dispensados por motivo de morte”.
A exemplo do aviso de Walter Benjamin de que nem os mortos estão a salvo quando somente os vitoriosos contam a historia, o trabalho de Rennó engaja a luta sobre a propriedade da memória. A experiência de ver é, por si própria, sujeita à força do esquecimento, e a tarefa de ler rastros é equivalente a apaziguar-se com o passado. Rastros de identidade foram capturados no momento anterior ao desaparecimento dessas pessoas, o reconhecimento da diferença extraída das sombras de uma história suprimida. A instalação representa um gesto redentor, a ressurreição dos corpos caídos, daqueles que se sacrificaram na construção do futuro.
MEREWETHER, Charles. “Archives of the Fallen // 1997”. In The Archive: Documents of Contemporary Art. London [Londres] e Cambridge, Massachusetts: Whitechapel e MIT Press, 2006. P. 160- 162
Imemorial1994
Instalação para a exposição "Revendo Brasília"
40 retratos em película ortocromática pintada e 10 retratos em fotografia em cor em papel resinado sobre bandejas de ferro e parafusos. Título Imemorial na parede em letras de metal pintado. 60 x 40 x 2 cm (cada moldura de ferro)
Coleção de Marcos Vinícius Vilaça (Brasília/Recife)